27.1.13

Entropia

Se nesse nascer e morrer eu ressuscitar e melhorar cada partícula de mim, cada partícula que me constitui, talvez eu queira de facto morrer.
Na minha ânsia não encontro como acalmar o meu insuperável e insuportável cepticismo e desse modo não me contento com o que sou e procuro estupidamente por decisões, infrutiferamente por respostas.
Oxalá alguém encontrasse em mim uma palavra inspiradora ou um mito, um orgasmo do cosmos, que o inspirasse a criar algo perfeito. Tornaria perfeita a minha obra. Tornaria valiosa a minha existência.
Importa-me concretamente o que sou pois ao não encontrar outra maneira de o ser tento ao menos compreender o porquê de ser assim. E tu? Não te incomoda a indefinição? Não te atrapalha o nascer e morrer e não saber nada e não ser nada senão pó, pó que um dia constituiu estrelas e planetas e átomos; somos apenas átomos e como é que átomos podem pensar tanto?
Se eu conseguisse fragmentar cada célula que me constitui cada molécula cada átomo cada electrão e dissecasse cada neurónio do meu corpo talvez compreendese que acalmar o meu corpo não é uma necessidade e sim agitá-lo, gerir a entropia que me atormenta.
Entropia. Caos. Vida e Morte.
Oxalá alguém encontrasse em mim uma frase inspiradora, uma obra, um êxtase da eternidade, que o levasse a criar algo perfeito. Tornaria perfeita a minha vida. Tornar-me-ia algo definido e cada partícula que me constitui seria matéria à sua maneira.

4.12.12

de que importa concretamente quem somos? de que importa a busca do que não somos, nos move, implacável, de que importa? se procuramos o inconcreto, se queremos mais do que o impossível, se nos desventramos na análise científica de interiores fechados em exterior. matéria, reles matéria somos, poderemos mais?

o mito é o orgasmo dos cosmos. nós, os cosmos. morremos morremos morremos A MORTE É A VIDA, MAIS QUE A VIDA

peço-te então que nasças, e morras e nasças e morras cada vez mais.

28.11.12

morremos e ficamos
simultaneamente
morremos nós e as nossas ideias permanecem
nas nossas consciências.
o problema reside aí, na transcrição apressada de pensamentos
que não podem ser descritos, sumariados em palavras, por mais caras que estas sejam
o que se sente
sente-se
descreve-lo é tirar-lhe o sentido
egoistamente
mente então ao criares projecções poéticas de ti mesma
nada poderá ser exactamente o que és
nem ninguém poderá concretamente ler quem sou.

8.11.12

a utopia jaz.
se não estás eu não estou.
não existas se por ti não é.
poia és ainda dos vivos? espero aqui por ti?
ou enterramos juntas o projecto de projecção dela, utopia.
morremos? ou ficamos? pregunto-te

?

18.10.12

deixa que eu flua

Derreto-me continuamente, pois claro, deixo que este subatómico eu se assuma e liberto-me, escapo-me das paredes que não possuo, que deixei de possuir, repentinamente - sem que desse conta de tal.
E sou livre de uma vez, vou alternando entre os estados físicos que me convêm mais ao momento, sou livre e consigo respirar embora todos os odores e vapores se tenham já consumido (e assim sendo já nada tenho para inspirar, já nenhuma realidade me cativa e interessa, toda a fusão entre o eu e o tu se desvaneceu).
E nesta prisão redonda a que uns chamam de planeta Terra, outros apenas crânio, cérebro, mente, alma, razão, nestes conceitos supérfluos, ideias já muito pré-concebidas da realidade, de uma qualquer realidade, entorpeço-me, caio, pereço sem que morra de facto. Até que um dia, por explodir todo o meu ser, toda a minha consciência, por todas as partículas que sou se tornarem uma, por libertar toda a energia trivial que guado estupidamente, bem contida e encafuada nos recônditos da minha pessoa, olho para cima e finalmente vejo - não com os olhos mas com a minha profunda e confusa existência.


27.8.12

quero que me continues

cheiros. dilantando memórias em fragrancias imperceptíveis do que em espaços se perdeu.
uma sala a céu aberto: uma só parede sem vértices. uma só e contínua irregularidade fechada mas aberta, a céu. a memória dos cheiros está incrustada na parede, não possuis a parede, o ar nunca foi teu. penetrou-te indiferente, fundiu-se no mais profundo molecular e atómico que temes ser, abandonou-te ao corte rasgado da recordação acutilante. o NUNCA MAIS.  irreversívelmente embriagado pelo perfume do antes, cais num chão que te coloca o céu visível, mais longe, longe, esta parede disforme que te cerca, que te corrói, que te come.

diz-me como escaparás. conta-mo como se me descascasses o craneo.

14.7.12

Utopos.
Conceito inconcebível enquanto parte de um todo, englobando toda a envolvente material.

o sol congela na linha do horizonte sem que a luz esmoreça de rompante. o conceito inconcebível concebe-se.
utopia. algures num outro lado do planeta um calor abrasador retorna a escorrer suor nos corpos estafados.
a continuidade das coisas mantém-se constante imutável transparente permanente camuflada.
utopia. não gravamos cheiros na memória, antes gravamos memórias nos cheiros.

28.5.12

Curvas planas côncavas em traços desalmados e quase nada humanos. Labaredas partículas minúsculas que se convertem em partículas minúsculas espaços vazios não preenchidos e somos carne e osso somos vida e pequenos minúsculos espaços vazios. O oxigénio mantém-se consumido quase diluido na atmosfera nauseabunda que tresanda a nós destas paredes caiadas já um pouco lascadas paupérrimas e sensaboronas e pode ser que o quarto sem janelas cresça iluminado aquando do nascer das pequenas partículas reactoras. Pensar que dentro de nós se perpetua a impensável inimaginável inconcebível energia para despoletar o rebentar de uma bomba atómica que arrasaria todo o verde que o mundo vai rareando, será legítima essa associação? Mas enquanto as curvas planas côncavas suadas em traços desalmados frenéticos nada humanos e inadaptados são percorridas num arrepio solene tudo se consome e as partículas minúsculas que não passam de pequenos minúsculos espaços vazios bastam para que se consuma o pobre desalento vítreo das nossas consciências pesadas.

14.5.12

Ainda assim pouco de mim descobri como enganar. Quando as luzes se apagam todas de uma vez ainda permanece nos meus olhos um pouco desse encadeamento, que me leva a crer que mesmo no escuro consigo encontrar o caminho e desviar-me dos obstáculos. E ainda assim pouco de mim descobri como enganar.