27.8.12

quero que me continues

cheiros. dilantando memórias em fragrancias imperceptíveis do que em espaços se perdeu.
uma sala a céu aberto: uma só parede sem vértices. uma só e contínua irregularidade fechada mas aberta, a céu. a memória dos cheiros está incrustada na parede, não possuis a parede, o ar nunca foi teu. penetrou-te indiferente, fundiu-se no mais profundo molecular e atómico que temes ser, abandonou-te ao corte rasgado da recordação acutilante. o NUNCA MAIS.  irreversívelmente embriagado pelo perfume do antes, cais num chão que te coloca o céu visível, mais longe, longe, esta parede disforme que te cerca, que te corrói, que te come.

diz-me como escaparás. conta-mo como se me descascasses o craneo.

14.7.12

Utopos.
Conceito inconcebível enquanto parte de um todo, englobando toda a envolvente material.

o sol congela na linha do horizonte sem que a luz esmoreça de rompante. o conceito inconcebível concebe-se.
utopia. algures num outro lado do planeta um calor abrasador retorna a escorrer suor nos corpos estafados.
a continuidade das coisas mantém-se constante imutável transparente permanente camuflada.
utopia. não gravamos cheiros na memória, antes gravamos memórias nos cheiros.

28.5.12

Curvas planas côncavas em traços desalmados e quase nada humanos. Labaredas partículas minúsculas que se convertem em partículas minúsculas espaços vazios não preenchidos e somos carne e osso somos vida e pequenos minúsculos espaços vazios. O oxigénio mantém-se consumido quase diluido na atmosfera nauseabunda que tresanda a nós destas paredes caiadas já um pouco lascadas paupérrimas e sensaboronas e pode ser que o quarto sem janelas cresça iluminado aquando do nascer das pequenas partículas reactoras. Pensar que dentro de nós se perpetua a impensável inimaginável inconcebível energia para despoletar o rebentar de uma bomba atómica que arrasaria todo o verde que o mundo vai rareando, será legítima essa associação? Mas enquanto as curvas planas côncavas suadas em traços desalmados frenéticos nada humanos e inadaptados são percorridas num arrepio solene tudo se consome e as partículas minúsculas que não passam de pequenos minúsculos espaços vazios bastam para que se consuma o pobre desalento vítreo das nossas consciências pesadas.

14.5.12

Ainda assim pouco de mim descobri como enganar. Quando as luzes se apagam todas de uma vez ainda permanece nos meus olhos um pouco desse encadeamento, que me leva a crer que mesmo no escuro consigo encontrar o caminho e desviar-me dos obstáculos. E ainda assim pouco de mim descobri como enganar.

1.5.12

e ouço um ruído de fundo como se subitamente todo o mundo houvesse estacado para os seus cérebros ecoarem em uníssono, as sinapses darem-se ao mesmo ritmo, os corações bombearem o fluxo negro de vida na mesma sinfonia parada e estagnada. o arco do violino não pousa, o sopro de ar não cresce. não flutua. o ruído de fundo abate-se sobre as consciências inebriadas, triviais, um sonânbulo levanta-se e caminha para o parapeito da janela. nasce vida.
o ruído de fundo cessa.

30.4.12

Zemrude

"As cidades e os olhos.  2.

É o humor de quem a olha que dá à cidade de Zemrude a sua forma. Se passarmos por ela a assobiar, de nariz no ar atrás do assobio, conhecê-la-emos de baixo para cima: sacadas, tendas a ondular, repuxos. Se caminharmos através dela de queixo contra o peito, com as unhas espetadas nas palmas das mãos, os nossos olhares prender-se-ão ao chão, aos regos de água, aos esgotos, às tripas de peixe, ao papel velho. Não se pode dizer que um aspecto da cidade seja mais verdadeiro que o outor, mas da Zemrude de cima ouve-se falar sobretudo a quem se lembra dela afundando-se na Zemrude de baixo, percorrendo todos os dias os mesmos caminhos e reencontrando de manhã o mau humor da véspera incrustado nas paredes. Para todos mais tarde ou mais cedo chega o dia em que baixaremos os olhos ao longo dos canos dos algerozes e já não conseguiremos afastá-los da calçada. Não está excluido o inverso, mas é mais raro: por isso continuamos a andar pelas ruas de Zemrude com os olhos que agora já escavam por baixo das caves, dos alicerces, dos poços."

Italo Calvino, in As Cidades Invisíveis



25.4.12

os olhos cerram-se sem se fecharem
lágrimas cedem onde deveriam nascer frutos
mas não será essa a única maneira de germinarem?


no espaço onde as imperfeições declaram a beleza decadente frágil e fina que destila o sangue de si mesmas.       infectadas de sussuros de prazer, dor. rasgadas. 

26.2.12